Angelus

Three times, nine times... A ring recorded in a small village in the south of France. Angelus rings several moments in the day, in France at least: 7:00 AM, 12:00 AM and 7:00 PM. It's an old tradition, dating from the days when people couldn't read hours on a clock.

sábado, 22 de março de 2014

Cristãos disfarçados (Tempo de Quaresma)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

Cristãos disfarçados

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 12 de 20 de Março de 2014


O cristão que pensa que se pode salvar sozinho «é um hipócrita», um «cristão disfarçado». A quaresma é o tempo oportuno para mudar a vida e para se aproximar de Jesus, pedindo perdão, arrependidos e prontos a testemunhar a sua luz e cuidando dos necessitados. Uma nova reflexão quaresmal foi proposta na manhã de terça-feira 18 de Março, pelo Papa Francisco na missa celebrada em Santa Marta.

«O tempo da quaresma — disse na homilia — é oportuno para nos aproximar mais do Senhor». De resto, explicou, a própria palavra o diz, porque quaresma significa conversão. E precisamente com um convite à conversão, disse comentando o trecho de Isaías (1, 10.16-20), «começa a primeira leitura de hoje. Com efeito, o Senhor chama à conversão; e curiosamente chama duas cidades pecadoras», Sodoma e Gomorra, às quais dirige o convite: «Convertei-vos, mudai de vida, aproximai-vos do Senhor». E explicou: «este é o convite da quaresma: são quarenta dias para se aproximar do Senhor, para estar mais perto dele. Porque todos nós temos necessidade de mudar de vida».

Depois o Papa referiu-se ao trecho do evangelho de Marcos (23, 1-12) acabado de proclamar: «Lemos no evangelho que o Senhor quer uma aproximação verdadeira, sincera. Mas o que fazem os hipócritas? Fingem. Fingem-se bons. Fazem uma pose de imagenzinhas, rezam olhando para o céu, chamando a atenção sobre si, sentem-se mais justos do que os outros, desprezam os outros». E proclamam-se bons católicos porque conhecem benfeitores, bispos e cardeais.

Esta é — frisou — a hipocrisia. E o Senhor diz não, porque ninguém se deve sentir justo por decisão pessoal. «Todos precisamos de ser justificados — repetiu o bispo de Roma — e o único que nos justifica é Jesus Cristo. Por isso devemos aproximar-nos: para não sermos cristãos disfarçados».

Mas «qual é o sinal de que estamos na estrada certa? A Escritura diz-nos: defender o oprimido, cuidar do próximo, do doente, do pobre, dos necessitados, dos ignorantes. Esta é a pedra de comparação». «Os hipócritas não podem fazer isto, porque são tão cheios de si que se tornaram cegos e não olham para os outros». Mas «se caminharmos um pouco e nos aproximarmos do Senhor, a luz do Pai faz ver tudo isto e ajudamos os irmãos. Este é o sinal da conversão».

Portanto, a quaresma serve para «mudar a nossa vida, para ajustar a vida e nos aproximar do Senhor». E a hipocrisia é «o sinal de que nos afastamos do Senhor». E concluiu: «O Senhor nos dê luz e coragem: luz para conhecer o que acontece dentro de nós e coragem para nos convertermos, nos aproximarmos do Senhor. É bom estar próximo do Senhor».

Quem sou eu para julgar os outros? É a pergunta que devemos fazer a nós mesmos para dar espaço à misericórdia, a atitude justa para construir a paz entre as pessoas, as nações e dentro de nós. Para sermos mulheres e homens misericordiosos é necessário reconhecer, em primeiro lugar, que somos pecadores e depois alargar o coração até esquecer as ofensas recebidas.

Foi precisamente a misericórdia que o Papa focalizou na homilia da missa celebrada na manhã de segunda-feira, 17 de Março. Referindo-se aos trechos do livro do profeta Daniel (9, 4-10) e do Evangelho de Lucas (6, 36-38), o Santo Padre explicou que «o convite de Jesus à misericórdia é para nos aproximarmos, para imitar melhor o nosso Deus Pai: sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso». Mas, reconheceu imediatamente o Pontífice, «não é fácil compreender esta atitude da misericórdia, porque nós estamos habituados a descarregar nos outros: tu fizeste isto, agora tens que fazer isto». Em poucas palavras, «nós julgamos, temos este hábito, e não somos pessoas» que deixam «um pouco de espaço à compreensão e também à misericórdia».

«Para ser misericordiosos são necessárias duas atitudes» afirmou o Papa. A primeira é «o conhecimento de si mesmos». Na primeira leitura Daniel narra o momento da oração do povo que se confessa pecador diante de Deus. Assim, explicou o Pontífice ao comentar o trecho, «a justiça de Deus diante do povo arrependido transforma-se em misericórdia e perdão». E interpela também a nós, convidando-nos a «dar um pouco de espaço a esta atitude». «Reconhecer que se fez algo contra o Senhor e envergonhar-se diante de Deus é uma graça: a graça de ser pecadores!».

«O nosso pai Adão — afirmou o Papa — deu-nos um exemplo daquilo que não se deve fazer». De facto, ele atribui a culpa à mulher por ter comido o fruto e justifica-se dizendo: «Eu não pequei». Mas o mesmo faz depois Eva, que dá a culpa à serpente. Ao contrário, reiterou o Santo Padre, é importante reconhecer os nossos pecados e ter necessidade do perdão de Deus. Não se devem procurar desculpas e «culpabilizar os outros». E «se fizermos isto, quantos coisas boas acontecerão: seremos homens!».

A segunda atitude para ser misericordiosos «é alargar o coração». Precisamente «a vergonha, o arrependimento, alarga o coração pequenino, egoísta, porque dá espaço a Deus misericordioso para nos perdoar». Mas que significa alargar o coração? Em primeiro lugar, reconhecer que somos pecadores, sem olhar para o que os outros fizeram. E a pergunta fundamental torna-se esta: «Quem sou eu para julgar isto? Quem sou eu para falar disto? Quem sou eu, que fiz as mesmas coisas ou até pior?». Com efeito, «se tiveres o coração largo, grande, podes receber mais!». E um «coração grande não se intromete na vida dos outros, não condena, mas perdoa e esquece», exactamente como «Deus esqueceu e perdoou os meus pecados».

Por conseguinte, para sermos misericordiosos é necessário invocar ao Senhor — «pois é uma graça» — e «ter estas duas atitudes: reconhecer os próprios pecados e envergonharmo-nos» e esquecer os pecados e as ofensas dos outros.

Este é, sugeriu o Papa, «o caminho da misericórdia que devemos pedir». Se «todos nós, os povos, as pessoas, as famílias, os bairros, tivéssemos esta atitude — exclamou — quanta paz haveria no mundo, quanta paz nos nossos corações, porque a misericórdia nos traz a paz!». E concluiu: «Recordai-vos sempre: quem sou eu para julgar? Envergonhar-se e alargar o coração! Que o Senhor nos conceda esta graça!».

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